Lula propõe um Ministério da Segurança Pública financiado em parte pela cobrança de apostas
O presidente do Brasil afirma que pretende criar o Ministério da Segurança Pública caso o PEC 18/2025 seja aprovado; a proposta planeja alocar 30% dos recursos das apostas de odds fixas para fundos da região.
O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), disse na última quinta-feira que pretende criar um Ministério da Segurança Pública caso a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 18/2025, conhecida como PEC de Segurança Pública, seja aprovada pelo Congresso Nacional.
Durante uma entrevista ao Jornal Nacional da TV Globo, Lula disse que articulou a votação da proposta com líderes da Assembleia Legislativa, incluindo o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB). O presidente também mencionou o papel do senador Jaques Wagner (PT-BA) nas discussões sobre o processamento do assunto.
"Estou discutindo isso no Congresso Nacional, agora foi submetido a votação. Por isso almocei com Alcolumbre e Hugo Motta. Vote no PEC de Segurança Pública, porque, no momento em que for aprovado, crio o Ministério da Segurança Pública", declarou.
A proposta contém um ponto diretamente relacionado ao mercado de apostas esportivas e jogos online. O texto prevê que 30% dos lucros provenientes da arrecadação da loteria de apostas de odds fixas, tanto em operações físicas quanto virtuais, serão usados para financiar fundos ligados à segurança pública.
Especificamente, a PEC destina esses 30% ao Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP) e ao Fundo Penitenciário Nacional (Funpen). A proposta também inclui os valores recuperados, apreendidos, confiscados ou definitivamente perdidos em decorrência da exploração ilegal do setor. O texto já foi aprovado pela Câmara dos Deputados e enviado ao Senado.
Apesar de enfatizar a importância do PEC durante a entrevista, o presidente não abordou o papel das apostas como uma das fontes planejadas para expandir o investimento na região. Explicando sua intenção de criar a nova pasta, Lula focou na distribuição de poderes entre administrações: "Por que vou criar o Ministério? Porque primeiro quero estabelecer qual é a participação de cada entidade federada na Segurança Pública. Qual será o papel da União, qual será o do Estado e qual será o do município", disse ele.
A vinculação desses recursos torna-se relevante diante dos números do setor. De acordo com dados compilados pelo BNLData, em 2025 as apostas esportivas e jogos online destinaram R$614,3 milhões ao Fundo Nacional de Segurança Pública, além de outros R$25,1 milhões para a Funapol, o fundo para equipamentos e operação da Polícia Federal.
A tendência de crescimento continuou em 2026. No primeiro semestre do ano, o Fundo Nacional de Segurança Pública já havia recebido 328,08 milhões de reais da atividade, enquanto a Funapol acumulou 72,18 milhões.
O PEC prevê investimentos em áreas como combate às milícias, modernização tecnológica das forças de segurança e fortalecimento da estrutura operacional, além de mecanismos para a reavaliação dos profissionais do setor, incluindo a discussão sobre salários mínimos na categoria. Mantendo os critérios de distribuição de 2025 para todos os beneficiários legais, estima-se que uma eventual perda de receita vinculada ao mercado de apostas possa alcançar, pelo menos, R$1,35 bilhão.
O reforço dessa dependência ocorre em um contexto de debate sobre possíveis restrições ao setor no Brasil. Especialistas consultados pelo BNLData alertam que uma eventual proibição ou limitação mais severa das apostas esportivas e jogos online pode causar uma perda estimada de 14.450 milhões de reais em impostos e outros destinos legais, segundo dados de 2025. Somado a isso está o impacto nos investimentos em futebol, contratos de publicidade e patrocínio esportivo e milhares de empregos, bem como o risco de migração de apostadores para plataformas ilegais, fora do escopo da auditoria.
Para o governo federal, o uso de recursos provenientes de apostas legais faz parte da estratégia de formalização e controle do setor. Desde a entrada em vigor da Lei nº 15.480/2026, parte da arrecadação foi para a Funapol, enquanto o bloqueio de recursos de empresas ilegais, previsto no Decreto nº 13.033/2026, faz parte da ofensiva contra plataformas não autorizadas. Na leitura do Executivo, quanto maior a participação do mercado formal, maior a arrecadação destinada a fundos públicos.
Se aprovado, o PEC de Segurança Pública consolidaria uma relação cada vez mais direta entre a estabilidade do mercado regulado de apostas e a capacidade de financiamento das políticas de valores mobiliários no Brasil: enquanto Lula articula no Congresso a aprovação do PEC 18/2025 e defende a criação do novo Ministério, as apostas estão se consolidando como uma das fontes de recursos que poderiam sustentar economicamente essa estrutura.